ELISÂNGELA,
A PAIXÃO DA MINHA VIDA.
Do livro “Sonhos e Realidades”, de Flávio de Paula
O fato se passou na década de 70, quando a novela global Irmãos Coragem estava com altíssima audiência e a atriz Elisângela, na flor da idade, com pouco mais de 15 anos, esbanjava formosura e beleza para júbilo do seu imenso fã-clube, de onde Jorge se orgulhava de pertencer como o mais ardente e apaixonado admirador.
Tanto Jorge como eu trabalhávamos no Banco do Brasil. Todos os dias, infalivelmente, lá estava ele comentando o capítulo da noite anterior, derramando adjetivos pela atuação da jovem e bela atriz, a musa dos seus sonhos, a quem, por certo, daria tudo na vida para conhecer pessoalmente e, quem sabe, poder tocar o coração daquela que tanto mexia com o seu pensamento. A paixão de Jorge aumentava na medida em que a novela se desenrolava, e o fato começou a ganhar conotação hilariante entre os colegas.
Nisso, sem imaginar a dimensão que a brincadeira poderia alcançar, resolvi, juntamente com Coutinho, outro colega do nosso setor, convencer Jorge a escrever uma carta de amor para Elisângela, contando-lhe a paixão incontida que alimentava no peito e dizendo-lhe do seu imenso desejo em conhecê-la. Jorge pulou de alegria com a idéia e, imediatamente, com a nossa ajuda, sentou-se para escrever a bendita carta, no mais puro estilo Shakespeariano, repleta de declarações e elogios, com expressões poéticas e romanescas, na certeza de que Elisângela ficaria impressionada com alguém que lhe dedicasse tanto amor. Tudo pronto, depois de revisões e mais revisões, colocamos no envelope o endereço da emissora de TV e, mais que depressa, Jorge apressou-se em colocá-lo no correio para que a resposta não demorasse a chegar.
Eu e Coutinho imaginamos que não deveria vir resposta alguma, como de fato não veio, mas este não era o pensamento de Jorge, que todos os dias consultava o setor de malotes se havia chegado alguma correspondência pra ele.
A demora começou a ficar acentuada e tivemos, então, a idéia de elaborar uma resposta fingindo ter sido escrita pela própria Elisângela. Lembrei-me que minha irmã morava no Rio de Janeiro e isso facilitaria muito, porque pediria a ela para colocar a nossa carta na agência do correio do Leblon, próximo da sua residência, simulando autenticidade.
Dito e feito! Bolamos uma resposta bem melosa agradecendo a gentileza das belas palavras e, dizendo, entre outras coisas, que se houvesse oportunidade gostaria, sim, de conhecê-lo. Dobramos a cartinha de forma bem feminina, colocamos um pouco de perfume para deixar o coração de Jorge ainda mais apaixonado e a mandamos para o Rio, onde seria colocada no correio.
Quando Jorge a recebeu quase desmaiou. Não desconfiou de coisíssima alguma, jurou por todos os santos que fora mesmo Elisângela quem escrevera e até aborreceu-se com os amigos que tentaram alertá-lo sobre um possível trote. Jorge estava cego de amor e aquela carta era tudo o que desejava na vida. Para ele o primeiro passo fora dado e, por sinal, com muito êxito, pois Elisângela já sabia da sua existência. Daí pra frente, a troca de correspondências os aproximaria ainda mais, o que o deixava radiante. Jorge mostrou a carta ao Banco inteiro, principalmente àqueles que duvidaram do seu sucesso. O que ele não imaginava é que todos sabiam da brincadeira, menos ele.
Começamos, a partir daí, a nos preocupar com a dimensão que o caso estava alcançando, pois chegara ao nosso conhecimento que o assunto já circulava até na Direção Geral, no Rio de Janeiro, onde deram boas gargalhadas. Embora nada tivesse de bobo, mas Jorge era nosso amigo e, surpreendentemente, estava se comportando como uma criança ingênua. Tentamos algumas vezes contar-lhe a verdade, mas os pedidos para que deixássemos o caso prosseguir foram tantos, inclusive de Jandir, chefe de importante setor do Banco, que nos sentimos encorajados, e até mesmo impelidos, a continuar com a brincadeira.
Assim, não demorou muito a Jorge nos procurar para escrevermos, juntos, uma nova cartinha e lá estávamos nós, eu e Coutinho, seus novos conselheiros, prontos para atender a um pedido tão especial. Tanto quanto a primeira, esta última foi cheia de amabilidades e delicadezas e, já pensando num desfecho para o caso, sugerimos que ele a consultasse sobre sua vinda à Bahia, e a informasse que faria muito gosto em ciceroneá-la, colocando-se à disposição para fazê-la conhecer minuciosamente cada detalhe desta maravilhosa terra descoberta por Cabral, abençoada por Senhor do Bonfim e tão cheia de encantos e magias.
Propositadamente, deixamos passar algum tempo antes de aprontarmos a segunda resposta, na tentativa de encontrar um final feliz para tão curiosa história de amor.
Jorge, cada vez mais apaixonado, soltava a imaginação fazendo mil conjecturas do que poderia acontecer quando se visse tête-à-tête com a bela Elisângela. Teatros, visitas a pontos turísticos, passeios de barco pela Baía de Todos os Santos, final de semana na Ilha de Itaparica eram apenas pequenos detalhes da sua vasta programação, em companhia, é claro, da Deusa inspiradora. Alguns dias de folga no Banco seriam fundamentais para estar inteiramente livre e poder dedicar-se a ela, quem sabe, em tempo integral. Queria tê-la nos braços, toda sua, sem ninguém para atrapalhar.
Antes que as coisas se complicassem ainda mais, resolvemos que a melhor solução seria simularmos a vinda de Elisângela a Salvador, informando a Jorge data e horário fictícios, obrigando-o a ir ao aeroporto buscá-la, quando, então, apareceríamos de surpresa com os inúmeros voluntários que manifestaram o desejo de nos acompanhar e, brindando o acontecimento com uma cervejinha bem gelada, contaríamos a ele que tudo não passara de uma simples brincadeira, só que não imaginávamos que ele fosse acreditar e, muito menos, que chegasse até onde chegou.
Tal e qual planejamos, mandamos a segunda carta-resposta para o Rio de Janeiro para ser colocada na mesma agência do correio, no Leblon, tendo chegado às mãos de Jorge dois a três dias após.
Jorge quase foi à loucura. Com a carta na mão, falando alto e gesticulando muito, bradava aos quatro cantos que Elisângela, dentro de poucos dias, desembarcaria em Salvador e o havia convidado a encontrá-la no aeroporto.
- Imaginem! Eu, escolhido pela maravilhosa Elisângela para recebê-la no aeroporto! Incrível!... Maravilhoso!... Fantástico!... - dizia repetidas vezes, sem se dar conta de que os colegas sorriam disfarçadamente.
- Tenho que estar muito bem preparado para recebê-la.
- Esta é uma oportunidade única e não vou desperdiçá-la - afirmava categoricamente.
E assim passou o resto do dia, entre feliz e nervoso, agradecendo a Deus pelo presente que havia recebido, porém preocupado com o compromisso assumido.
No dia seguinte, no intervalo do almoço, sem nos dizer do que se tratava, Jorge avisou que precisava sair para tomar algumas providências, deixando a turma intrigada. Depois de algum tempo, carregando excessiva quantidade de pacotes, chega ao Banco todo sorridente, cansado, porém feliz, convicto de que agira com sabedoria porque era preciso estar muito bem apresentado para receber a estrela. Sapatos, calças, camisas, perfumes e até um boné para os dias de sol, tudo da melhor qualidade, fizeram parte da lista de compras de Jorge. Nenhum detalhe fora esquecido. Nem pensar em esquecer detalhes numa hora dessas! Aliás, só o buquê de flores ficou para o dia da chegada. No restante, tudo providenciado.
- Graças a Deus - dizia ele entre ansioso e realizado.
Na data marcada, uma sexta-feira propositalmente escolhida por ser dia apropriado para comemorações, chegamos ao aeroporto pouco antes das sete da noite, horário da aterrissagem do avião, e lá estava Jorge, impecavelmente vestido, alinhadíssimo, com ares de galã de novela, à espera da princesa.
Nem a nossa presença o fez desconfiar da brincadeira. Alegrou-se ao nos ver e, como já se aproximava o horário do pouso, fomos juntos assistir ao desembarque. O combinado era aguardar a saída de todos os passageiros para depois revelar-lhe a verdade.
A atenção de Jorge concentrava-se em cada pessoa que desembarcava, mas com o passar do tempo, ao perceber que Elisângela não chegara, a expressão de decepção começou a tomar conta do seu rosto.
- Ela disse que viria e não poderia ter desistido, assim, de última hora, sem me avisar – comentava inquieto.
Depois que os passageiros desceram, como derradeiro recurso, Jorge pediu ao grupo para esperar um pouco mais porque, segundo ele, na condição de artista famosa, talvez ela quisesse sair por último, sozinha, sem chamar a atenção. E lá ficamos nós, por algum tempo, na esperança dele cair na realidade e desistir daquela empreitada infantil.
Qual não foi a nossa surpresa quando, de repente, ele resolveu aguardar todos os vôos procedentes do Rio de Janeiro, fazendo-nos permanecer no aeroporto até altas horas da noite.
Lá pelas tantas, cansados, decepcionados e morrendo de sono, voltamos pra casa sem que tivéssemos tido a coragem de dizer-lhe a verdade.
Na segunda-feira seguinte, ao entrar no Banco, a primeira pessoa que encontrei foi Jorge. Muito cortês, como sempre, abraçou-me sorrindo e disse que já sabia de tudo.
- Vocês são formidáveis! A brincadeira foi muito bem feita e eu tenho que parabenizá-los – comentou.
- Apenas peço-lhes desculpa por tê-los feito esperar madrugada adentro, desnecessariamente, lá no aeroporto.
- Espero que não tenham tido problemas em casa com as esposas – concluiu despedindo-se para não atrasar sua chegada ao setor.
Confesso que fiquei surpreso! Esperava dele outra reação! Com a intimidade que temos imaginei que, pelo menos, fizesse algum comentário, reclamasse de alguma coisa, embora soubesse da sua elegância no trato com os colegas.
Aí fiquei pensando... ele falou naquela maçada que tomamos no aeroporto madrugada adentro... na preocupação de não termos tido problemas em casa... Êpa! Aquilo foi planejado! Se bem o conheço, depois da chegada do primeiro avião, conscientizando-se de que era mesmo uma brincadeira, resolveu não deixar por menos e nos pagar na mesma moeda.
