Crônicas                                                            
 

QUE SUFOCO!

Publicado no jornal A Tarde em 01/05/1997

Do livro “Crônicas e Realidades”, de Flávio de Paula

A convivência de muitos anos de trabalho na mesma empresa, dia após dia dividindo responsabilidades e compartilhando os mesmos problemas, faz aumentar a estima e a solidariedade entre as pessoas, gerando amizades que duram uma vida toda.

Nem a aposentadoria os separa. Ao contrário, parece até que os aproxima ainda mais. Quando se encontram, a conversa gira em torno de política, futebol, família... Jamais esquecem de citar fatos pitorescos e hilariantes que aconteceram durante os anos em que trabalharam juntos. E aí vêm à tona as mais divertidas e curiosas histórias.

No Shopping Barra, às sextas feiras, curtindo um choppinho gelado, encontramos, infalivelmente, Wilson, Messias, Estrela, Otávio (Tatá), Chico Carvalho e vários outros aposentados do Banco do Brasil, muito conhecidos pelos excepcionais serviços prestados à instituição.

Nesta última sexta-feira, por exemplo, lá pelas tantas, alguém lembrou da história daquele colega que, apaixonadíssimo por Magda, uma das chacretes da Discoteca do Chacrinha , resolveu, longe dos olhos da esposa, cedendo aos seus impulsos amorosos, mandar para a musa a mais melosa e apaixonada carta de amor que fizera em sua vida. Certamente ela não iria resistir aos seus eloqüentes galanteios e, entre outras coisas, receberia o pôster desejado, de tanguinha, com uma dedicatória à altura de tão grande paixão.

Passados alguns dias, em pleno programa, aparece Chacrinha com uma carta na mão, sorrindo e tocando debochadamente aquela espalhafatosa buzina. Anunciou que um funcionário do Banco do Brasil, de Salvador, na Bahia, havia escrito uma apaixonadíssima carta para Magda. Mandou que ela chegasse à frente e dançasse, exibindo seus maravilhosos dotes, para gáudio do seu apaixonado, enquanto, lentamente, começava a ler a bendita carta.

O susto não poderia ter sido maior. O nosso herói jamais imaginou que isto pudesse acontecer e, como de costume, havia reunido a família na sala para assistir, segundo a opinião dele, ao melhor programa da televisão brasileira. Atônito, via sua declaração de amor - íntimas confidências para Magda - sendo divulgada para todo o Brasil, via satélite, ao vivo e a cores. Diante da televisão, a esposa acompanhava atentamente o desfecho, interessadíssima em saber quem, do Banco do Brasil, teria tido tamanha coragem de declarar-se assim, publicamente.

Ao final da leitura, Chacrinha fez uma pausa proposital, pressionou uma das narinas com o dedo indicador, olhou para a câmera e perguntou com voz fanhosa: vocês querem saber o nome dele ? Suando por todos os poros, pálido como uma cera e tremendo que nem vara verde, o nosso herói - que a essa altura já não era mais herói e sim derrotado - pulou da cadeira e desligou a televisão, anunciando a todos que estava passando mal, com tremenda dor de cabeça e que a televisão só poderia ser novamente ligada quando ele melhorasse. Apesar dos protestos, não houve argumento ou apelo que o fizesse voltar atrás. O susto foi tão grande que a coitada da esposa, fiel e inocente companheira, preocupadíssima com o seu estado geral, por várias horas aplicou-lhe sucessivas compressas de água quente.

O restante da noite foi terrível. Não pregou os olhos um só instante, mas pelo menos ninguém ficou sabendo o final da história. Ainda teria algum tempo, até o amanhecer, para pensar numa boa desculpa.

No dia seguinte, segunda-feira, no Banco, soube que Chacrinha mantivera em sigilo a autoria da carta. O casamento, felizmente, estava salvo, mas as gozações da turma ele teve que aturar por longo tempo.

Meses depois, quando já nem se falava mais no caso, recebeu de sua musa inspiradora uma fotografia, exatamente como pedira, onde se lia: Com um beijo bem gostoso da sua Magda .

Flavio de Paula - 09/09/2004


AOS PARES

Isa Musa de Noronha


São duas
As contradições humanas:
Amor e ódio.
E a mão direita.
A mão esquerda.
O olho direito.
O olho esquerdo.
São pares.


São duas
As nossas dúvidas:
Vida e morte,
Como dois são
Os medos do homem:
A traição e o abandono.


Eis que tudo se
Realiza aos pares:
A dor e o remédio,
O mal e a cura,
A esperança e a fé,
A noite e o dia.


Só eu sigo ímpar.
Vendo passar aos pares,
Todas as desditas
Da vida.


ELISÂNGELA,

A PAIXÃO DA MINHA VIDA.

Do livro “Sonhos e Realidades”, de Flávio de Paula

O fato se passou na década de 70, quando a novela global Irmãos Coragem estava com altíssima audiência e a atriz Elisângela, na flor da idade, com pouco mais de 15 anos, esbanjava formosura e beleza para júbilo do seu imenso fã-clube, de onde Jorge se orgulhava de pertencer como o mais ardente e apaixonado admirador.

Tanto Jorge como eu trabalhávamos no Banco do Brasil. Todos os dias, infalivelmente, lá estava ele comentando o capítulo da noite anterior, derramando adjetivos pela atuação da jovem e bela atriz, a musa dos seus sonhos, a quem, por certo, daria tudo na vida para conhecer pessoalmente e, quem sabe, poder tocar o coração daquela que tanto mexia com o seu pensamento. A paixão de Jorge aumentava na medida em que a novela se desenrolava, e o fato começou a ganhar conotação hilariante entre os colegas.

Nisso, sem imaginar a dimensão que a brincadeira poderia alcançar, resolvi, juntamente com Coutinho, outro colega do nosso setor, convencer Jorge a escrever uma carta de amor para Elisângela, contando-lhe a paixão incontida que alimentava no peito e dizendo-lhe do seu imenso desejo em conhecê-la. Jorge pulou de alegria com a idéia e, imediatamente, com a nossa ajuda, sentou-se para escrever a bendita carta, no mais puro estilo Shakespeariano, repleta de declarações e elogios, com expressões poéticas e romanescas, na certeza de que Elisângela ficaria impressionada com alguém que lhe dedicasse tanto amor. Tudo pronto, depois de revisões e mais revisões, colocamos no envelope o endereço da emissora de TV e, mais que depressa, Jorge apressou-se em colocá-lo no correio para que a resposta não demorasse a chegar.

Eu e Coutinho imaginamos que não deveria vir resposta alguma, como de fato não veio, mas este não era o pensamento de Jorge, que todos os dias consultava o setor de malotes se havia chegado alguma correspondência pra ele.

A demora começou a ficar acentuada e tivemos, então, a idéia de elaborar uma resposta fingindo ter sido escrita pela própria Elisângela. Lembrei-me que minha irmã morava no Rio de Janeiro e isso facilitaria muito, porque pediria a ela para colocar a nossa carta na agência do correio do Leblon, próximo da sua residência, simulando autenticidade.

Dito e feito! Bolamos uma resposta bem melosa agradecendo a gentileza das belas palavras e, dizendo, entre outras coisas, que se houvesse oportunidade gostaria, sim, de conhecê-lo. Dobramos a cartinha de forma bem feminina, colocamos um pouco de perfume para deixar o coração de Jorge ainda mais apaixonado e a mandamos para o Rio, onde seria colocada no correio.

Quando Jorge a recebeu quase desmaiou. Não desconfiou de coisíssima alguma, jurou por todos os santos que fora mesmo Elisângela quem escrevera e até aborreceu-se com os amigos que tentaram alertá-lo sobre um possível trote. Jorge estava cego de amor e aquela carta era tudo o que desejava na vida. Para ele o primeiro passo fora dado e, por sinal, com muito êxito, pois Elisângela já sabia da sua existência. Daí pra frente, a troca de correspondências os aproximaria ainda mais, o que o deixava radiante. Jorge mostrou a carta ao Banco inteiro, principalmente àqueles que duvidaram do seu sucesso. O que ele não imaginava é que todos sabiam da brincadeira, menos ele.

Começamos, a partir daí, a nos preocupar com a dimensão que o caso estava alcançando, pois chegara ao nosso conhecimento que o assunto já circulava até na Direção Geral, no Rio de Janeiro, onde deram boas gargalhadas. Embora nada tivesse de bobo, mas Jorge era nosso amigo e, surpreendentemente, estava se comportando como uma criança ingênua. Tentamos algumas vezes contar-lhe a verdade, mas os pedidos para que deixássemos o caso prosseguir foram tantos, inclusive de Jandir, chefe de importante setor do Banco, que nos sentimos encorajados, e até mesmo impelidos, a continuar com a brincadeira.

Assim, não demorou muito a Jorge nos procurar para escrevermos, juntos, uma nova cartinha e lá estávamos nós, eu e Coutinho, seus novos conselheiros, prontos para atender a um pedido tão especial. Tanto quanto a primeira, esta última foi cheia de amabilidades e delicadezas e, já pensando num desfecho para o caso, sugerimos que ele a consultasse sobre sua vinda à Bahia, e a informasse que faria muito gosto em ciceroneá-la, colocando-se à disposição para fazê-la conhecer minuciosamente cada detalhe desta maravilhosa terra descoberta por Cabral, abençoada por Senhor do Bonfim e tão cheia de encantos e magias.

Propositadamente, deixamos passar algum tempo antes de aprontarmos a segunda resposta, na tentativa de encontrar um final feliz para tão curiosa história de amor.

Jorge, cada vez mais apaixonado, soltava a imaginação fazendo mil conjecturas do que poderia acontecer quando se visse tête-à-tête com a bela Elisângela. Teatros, visitas a pontos turísticos, passeios de barco pela Baía de Todos os Santos, final de semana na Ilha de Itaparica eram apenas pequenos detalhes da sua vasta programação, em companhia, é claro, da Deusa inspiradora. Alguns dias de folga no Banco seriam fundamentais para estar inteiramente livre e poder dedicar-se a ela, quem sabe, em tempo integral. Queria tê-la nos braços, toda sua, sem ninguém para atrapalhar.

Antes que as coisas se complicassem ainda mais, resolvemos que a melhor solução seria simularmos a vinda de Elisângela a Salvador, informando a Jorge data e horário fictícios, obrigando-o a ir ao aeroporto buscá-la, quando, então, apareceríamos de surpresa com os inúmeros voluntários que manifestaram o desejo de nos acompanhar e, brindando o acontecimento com uma cervejinha bem gelada, contaríamos a ele que tudo não passara de uma simples brincadeira, só que não imaginávamos que ele fosse acreditar e, muito menos, que chegasse até onde chegou.

Tal e qual planejamos, mandamos a segunda carta-resposta para o Rio de Janeiro para ser colocada na mesma agência do correio, no Leblon, tendo chegado às mãos de Jorge dois a três dias após.

Jorge quase foi à loucura. Com a carta na mão, falando alto e gesticulando muito, bradava aos quatro cantos que Elisângela, dentro de poucos dias, desembarcaria em Salvador e o havia convidado a encontrá-la no aeroporto.

- Imaginem! Eu, escolhido pela maravilhosa Elisângela para recebê-la no aeroporto! Incrível!... Maravilhoso!... Fantástico!... - dizia repetidas vezes, sem se dar conta de que os colegas sorriam disfarçadamente.

- Tenho que estar muito bem preparado para recebê-la.

- Esta é uma oportunidade única e não vou desperdiçá-la - afirmava categoricamente.

E assim passou o resto do dia, entre feliz e nervoso, agradecendo a Deus pelo presente que havia recebido, porém preocupado com o compromisso assumido.

No dia seguinte, no intervalo do almoço, sem nos dizer do que se tratava, Jorge avisou que precisava sair para tomar algumas providências, deixando a turma intrigada. Depois de algum tempo, carregando excessiva quantidade de pacotes, chega ao Banco todo sorridente, cansado, porém feliz, convicto de que agira com sabedoria porque era preciso estar muito bem apresentado para receber a estrela. Sapatos, calças, camisas, perfumes e até um boné para os dias de sol, tudo da melhor qualidade, fizeram parte da lista de compras de Jorge. Nenhum detalhe fora esquecido. Nem pensar em esquecer detalhes numa hora dessas! Aliás, só o buquê de flores ficou para o dia da chegada. No restante, tudo providenciado.

- Graças a Deus - dizia ele entre ansioso e realizado.

Na data marcada, uma sexta-feira propositalmente escolhida por ser dia apropriado para comemorações, chegamos ao aeroporto pouco antes das sete da noite, horário da aterrissagem do avião, e lá estava Jorge, impecavelmente vestido, alinhadíssimo, com ares de galã de novela, à espera da princesa.

Nem a nossa presença o fez desconfiar da brincadeira. Alegrou-se ao nos ver e, como já se aproximava o horário do pouso, fomos juntos assistir ao desembarque. O combinado era aguardar a saída de todos os passageiros para depois revelar-lhe a verdade.

A atenção de Jorge concentrava-se em cada pessoa que desembarcava, mas com o passar do tempo, ao perceber que Elisângela não chegara, a expressão de decepção começou a tomar conta do seu rosto.

- Ela disse que viria e não poderia ter desistido, assim, de última hora, sem me avisar – comentava inquieto.

Depois que os passageiros desceram, como derradeiro recurso, Jorge pediu ao grupo para esperar um pouco mais porque, segundo ele, na condição de artista famosa, talvez ela quisesse sair por último, sozinha, sem chamar a atenção. E lá ficamos nós, por algum tempo, na esperança dele cair na realidade e desistir daquela empreitada infantil.

Qual não foi a nossa surpresa quando, de repente, ele resolveu aguardar todos os vôos procedentes do Rio de Janeiro, fazendo-nos permanecer no aeroporto até altas horas da noite.

Lá pelas tantas, cansados, decepcionados e morrendo de sono, voltamos pra casa sem que tivéssemos tido a coragem de dizer-lhe a verdade.

Na segunda-feira seguinte, ao entrar no Banco, a primeira pessoa que encontrei foi Jorge. Muito cortês, como sempre, abraçou-me sorrindo e disse que já sabia de tudo.

- Vocês são formidáveis! A brincadeira foi muito bem feita e eu tenho que parabenizá-los – comentou.

- Apenas peço-lhes desculpa por tê-los feito esperar madrugada adentro, desnecessariamente, lá no aeroporto.

- Espero que não tenham tido problemas em casa com as esposas – concluiu despedindo-se para não atrasar sua chegada ao setor.

Confesso que fiquei surpreso! Esperava dele outra reação! Com a intimidade que temos imaginei que, pelo menos, fizesse algum comentário, reclamasse de alguma coisa, embora soubesse da sua elegância no trato com os colegas.

Aí fiquei pensando... ele falou naquela maçada que tomamos no aeroporto madrugada adentro... na preocupação de não termos tido problemas em casa... Êpa! Aquilo foi planejado! Se bem o conheço, depois da chegada do primeiro avião, conscientizando-se de que era mesmo uma brincadeira, resolveu não deixar por menos e nos pagar na mesma moeda.


O MUNDO EM RETÂNGULOS DE PAPEL

José Carlos Daltozo

À primeira vista são simples retângulos de papel, mas eles têm mais de um século de história, exatamente 134 anos de uma vida muito atribulada. São conhecidos no mundo inteiro, desde Anchorage, no Alasca, até Punta Arenas, no Chile. Ou de Oslo, na Noruega, a Adelaide, na Austrália. Estamos falando do cartão-postal, essa invenção simples que nasceu em 1869, idealizada pelo professor Emmanuel Hermann, na Áustria. Em poucos anos se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil em 1880. Não início não continha fotos ou desenhos, eram simples cartolinas pré-seladas onde se podia escrever a mensagem a descoberto, ou seja, sem a utilização de envelopes. Excelente veículo para mensagens curtas, pequenas notícias, boas lembranças e pequenos avisos, nasceu praticamente na mesma época do telefone, no entanto, como este era raro e caro, passou a ser o meio mais simples e eficiente de comunicação entre as pessoas.

Alguns anos depois, quando começou a mostrar, numa das faces, desenhos e fotografias, sua popularidade aumentou e passou a ser objeto de colecionamento. A época áurea do cartão-postal foi no início do século XX, de 1900 a 1930. Hoje ele continua muito utilizado como meio de propagar fotos de cidades, belas paisagens, igrejas, praias e empreendimentos turísticos variados: pousadas, hotéis e resorts. Antigos ou modernos, os postais constituem valioso recurso para os pesquisadores de história, geografia, artes, arquitetura, meios de transporte, modo de vida, usos e costumes de povos e países. Esses simples retângulos de papel são, portanto, instrumentos de preservação da memória dos homens e suas realizações, e da vida animal e vegetal. Uma coleção de postais é uma verdadeira janela para o mundo. Além disto é uma excelente terapia para o atribulado ser humano da atualidade, ajudando-o a combater o stress da vida moderna. Uma espécie de fuga, uma viagem sem passaporte, sem pesadas malas, sem a confusão de rodoviárias e aeroportos.

Também pode ser objeto de estudo sociológico, como o realizado pelo escritor pernambucano Gilberto Freyre em seu livro “Alhos e Bugalhos”. Ele dedicou 16 páginas a um ensaio sobre o cartão-postal do início do século na Amazônia, mais especificamente sobre os postais remetidos daquela região para Portugal.

Tudo começou quando ele visitava a Feira da Ladra, em Lisboa, e encontrou vários postais à venda numa barraquinha de antiguidades. Mostravam a Amazônia brasileira na época áurea da borracha. Sua atenção foi despertada para as paisagens que não mais existiam e, principalmente, pelo conteúdo sociológico das mensagens escritas no verso. Ou seja, os imigrantes portugueses que vieram fazer a América, escrevendo para seus conterrâneos sobre a aventura no Inferno Verde.

Freyre, sem ser colecionador, passou a admirador do cartão-postal. O colecionador, na maioria das vezes, está à procura do aspecto pictório, do interesse histórico de um postal. Mas para o sociólogo interessava mais o que pensava e escrevia no verso do postal o imigrante vivendo no começo do século XX no “calor tropical da Amazônia, numa aventura em ambiente tão diverso do rotineiramente europeu de suas aldeias minhotas, ou do Porto, ou de Lisboa”.

Esses imigrantes descreviam o que encontravam no novo lar, as árvores gigantescas, os rios infindáveis, as belezas dos teatros de Manaus e Belém, o movimento dos portos e até, num deles, o remetente exaltava a maravilha do banho diário e o uso do chuveiro, ainda pouco conhecido nas províncias portuguesas.

Gilberto Freyre finaliza seu trabalho dizendo que “dos postais que consegui juntar para uma pequena análise, as informações conservadas nesses veículos simples e até frívolos e brejeiros de comunicação, não consta nenhum que confessasse fracassos. Ou contasse lamúrias e decepções. Isso não quer dizer que tais fatos não tenham ocorrido com os imigrantes portugueses, mas como o cartão-postal é algo festivo, colorido, lúdico, há uma incompatibilidade do seu uso para mensagens negativas. Todos os que se dispunham a comprar postais e escrever para seus parentes, o faziam com a euforia do triunfador”.

*José Carlos Daltozo é colecionador de cartões-postais, tem mais de 85.000 exemplares em seu acervo, do mundo inteiro – Aceita doações de cartões-postais (novos ou escritos no verso, postais antigos ou atuais, de qualquer lugar do mundo).

Caixa Postal, 117 - 19500-000 - Martinópolis – SP


PARA QUE SERVE A TECLA POWER
                             Isa Musa de Noronha

 

Quase nunca tenho acesso ao controle remoto da tv. Quem, como eu, divide a televisão com a mãe, ou a sogra, ou o marido (ou esposa) e os filhos, sobrinhos ou netos sabe do que eu estou falando... A gente assiste ao programa que eles querem ver.
Uma noite dessas entrei na sala e, surpresa! A tv estava ligada e ninguém estava assistindo!. Oba!!! Passei a mão no controle e comecei a roletar...
Canal x, desenho, um clic no controle e outro desenho, chego à Discovery e lá estavam as imagens cruéis do tsunami com a maior das ondas e corpos despedaçados cobertos de lama. Mudei de canal. Já vi aquela tragédia muito mais do que precisaria ver.
Um canal de esportes passava o video-tape de... Pasmem: Famengo x Olaria. Mudei depressa. No outro, aquele joguinho bobo de bola pra lá, bola pra cá que perdeu a graça depois que o Guga sumiu do mapa.
Mudei de novo.
Mais outro canal de esporte e lá estavam jogando, também em vt, o Arsenal da Inglaterra contra um time da Turquia! Credo!
Cheguei aos canais de filmes... No 61, passava pela enésima vez, Gladiador! No 62, repetia-se um filme macabro, o tal "Colheita Maldita-4", no 63, a velha comédia romântica "Adivinhe quem vem para o jantar" o 64 uma comédia idiota que nem mesmo identifiquei e no 65 a versão original de Spartacus. Fui para o 66, o canal Brasil. Lá estava mais uma das chanchadas antigas com a Dercy Gonçalves.
Desisti. Sintonizei a Globo e lá estavam os Big Brother... Ai então descobri a função da tecla "power" do controle remoto. Fui para o meu quarto, apanhei o livro que atualmente está à mesa de cabeceira e adormeci sonhando com minha casinha de infância: na roça, sem tv e nem mesmo luz elétrica.

                             Isa Musa de Noronha


OS BONDES DE SÃO CARLOS (SP)
Ton Gorni                                                    

Em 21/ março/ 2005. Não, não vou falar sobre a famosa peça teatral de Tenessee Williams. Vou escrever um pouco sobre os bondes de São Carlos (SP), onde vivi dos 12 aos 16 anos, ainda naquele tempo que se "amarrava lingüiça com cachorro"; mas não é "amarrar cachorro com lingüiça"? Não, isso veio depois... São Carlos (SP), era uma das poucas da cidade do interior que, naqueles tempos, possuía linhas de bonde. Conheci-os no início de 1945 e dizem que foram, impiedosamente, sepultados pelo capitalismo selvagem, envolvendo motivos políticos, daqueles que desejam criar (e ganhar dinheiro com) linhas de ônibus. Uma tremenda crueldade, pois tanto bondes como ônibus poderiam ter coexistido pacificamente. A destruição começou e terminou no início dos anos 60. A ganância venceu totalmente, quando todos poderiam ganhar. Mas, os ônibus não desejam concorrência. Inacreditável, porque a cidade que já crescia, cresceu mais ainda, continua crescendo e aos bondes caberia a glória de transitar, agora, apenas pelo chamado "grande centro da cidade". São Carlos possuía nove bondes: os nºs. 1, 3, 5, 7, 9, 11, 1'3, 15 e 17. O de número 9 era fechado como ônibus, como a maioria dos bondes de S.Paulo, e cujo nome era "camarão". Depois, fizeram uma reforma nele, tiraram as laterais e ficou como os demais, de maneira que não mais podia ser motivo de inveja para os outros bondes. Assim a paz reinava depois de 11:00h da noite, na estação deles, localizada na Vila Nery. Foi a implantação do comunismo entre eles, sem revolução, sem mortes.(rs). As linhas de bondes eram três, a saber: a) da Estação ferroviária ao Cemitério, saindo do em frente, entrando na rua General Osório, virando na Avenida S.Carlos, passando em frente da Catedral, no centro e dois quilômetros, chegava à necrópole municipal. Como nessa linha tínhamos quatro bondes, eles se cruzavam em três desvios; um na rua Gen.Osório um pouco antes de entrar na Av. S. Carlos; outro,um grande desvio que na Av. S.Carlos, entre a rua Conde do Pinhal e rua 7 de setembro e, finalmente, o último, entre a Av. Dr. Carlos Botelho e a rua 28 de setembro. Quando morria gente importante, o féretro ia a pé até a Catedral e depois da "benzeção" do corpo pelo padre o caixão ia para o carro fúnebre, que seguia na frente e o bonde especial atrás com os amigos e conhecidos da família do(a) do(a) morto(a). b) da Estação ferroviária até a Vila Nery, saindo do largo em frente, descendo a Bento Carlos, virando a 9 de julho, entrando na Conde do Pinhal, virando na Av. S.Carlos e, depois, na rua 7 de setembro, onde fazia o cruzamento com o elétrico que vinha da Vila Nery, junto à rua Alexandrina.Quem chegava primeiro, tinha de esperar pelo outro. Para essa linha só dois bondes. O trajeto de volta, vamos assim dizer, era exatamente ao contrário. c) do Ginásio Diocesano à Santa Casa de Misericórdia, saindo de frente da referida Escola, seguindo pela rua General Osório, cruzando a linha férrea da Cia.Paulista, entrava numa ruazinha de um quarteirão, passava em frente à Estação ferroviária, descia a rua Sta. Cruz, entrava na rua José Bonifácio, depois virava na Bento Carlos até a rua S.Joaquim, onde virava na Major José Ignácio,fazendo,então o cruzamento com o bonde que vinha da Santa Casa. Depois entrava na Av. S.Carlos, virava na 7 de setembro, subia a rua Alexandrina até a Marechal Deodoro, da qual virava para a D. Pedro II e indo até a Av. Dr. Carlos Botelho, cruzava lá em cima a Av. S.Carlos, entrava na rua Episcopal, virava na rua 28 de setembro,passava em frente ao estádio do Paulista E.C. (depois Escola Superior de Educação Física e depois, ainda, instalações e piscinas do S.Carlos Clube), virava então na rua 9 de julho e entrava novamente na Av. Dr. Carlos Botelho, seguindo, após, até a Santa Casa de Misericórdia de S.Carlos, passando, antes pelo Posto Zootécnico, na Vila Pureza, onde está,hoje, a USP. Também nessa linha só ransitavam dois bondes. No cruzamento de ambos, no centro da cidade, quem chegava primeiro esperava pelo outro. Hoje, não existem os bondes, e a estação ferroviária é só sombra mal assombrada do que foi... De vez em quando um trem cargueiro, transportando soja do Mato Grosso do Sul, passa por lá; nota-se, todavia, que a via permanente está cada vez pior e está precisando de boa recuperação e após isso, constante manutenção. Alô, alô, Governo Lula, alô. Dizem que não se pode viver do passado, mas quem não vive o passado? Só se for desmemoriado...

Ton Gorni - 20/03/2005



ALVACY ROQUE DE CARVALHO
Wladimir Bruno Tucunduva             

 

           Em 62 tomei posse em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Cidade planejada, com ruas largas e limpas. Agencia do Banco ainda nova e um quadro de funcionários quase todo constituído por novatos vindos do interior paulista (em grande número), alguns cariocas e paranaenses. Ambiente maravilhoso (que saudade!). Muita animação, festas, estórias pra escrever um livro, ou mais... Lá fiz grandes amigos e convivi com uma pessoa que, embora não fizesse parte de minha “galera”, valorizou muito minha passagem naquela terra. Lembrando a revista “Seleções”, é o meu “tipo inesquecível”. Integro, honesto, humanista, independente (não sectário), ateu de atitudes profundamente cristãs. Eis um retratinho 3x4 desse caboclo da Amazônia:

          Trajando, invariavelmente, uma surrada jaqueta de couro marrom, corria os areões do noroeste paranaense, pilotando sua Vespa, nas funções de fiscal da Creai (antigo Setop). Os outros fiscais possuíam Jeep, mas Alvacy não conseguia economizar para tanto.Um dia percebi que passara a utilizar-se também de Jeeps. Só que alugados... Intrigado perguntei-lhe:

-Ué! Alvacy, cadê a Vespa...tá quebrada?

– Não, meu caro (expressão que sempre usava), foi apreendida por irregularidade, pela fiscalização lá de Loanda...

– Mas já faz algum tempo, né? Não conseguiu ainda retomar seu “cavalo”?

Sorrindo, meio sem-jeito, meio malandramente, ele explicou:

- Sabe, meu caro, os policiais ganham muito mal...

E com os olhos brilhantes e um largo sorriso, acrescentou:

- O policial que fez a apreensão, sabe meu caro, ele tem uma prole numerosa...e, agora usa a Vespa para comércio, tirando um bom dinheirinho dessa atividade. Compra coisas nos sítios – frango, mandioca, verduras... – e as vende na cidade. Graças à Vespa ele pode dar melhor condição de vida pra família. Acho que você, também, não teria coragem de tomar-lhe seu ganha-pão...Certo?

Esse é o Alvacy Roque de Carvalho . Aúltima vez que o vi foi em São Paulo, em 1965, para onde fora transferido. Sei que, depois, retornou para a Amazônia onde deve ter se aposentado. Gostaria de ter notícias desse amazonense que deu-me lições de humanidade, solidariedade, total desapego e grande dignidade. Um Homem